- Tudo que eu tenho é isso, meus cigarros e minha musica – ele dizia quando alguém da banda perguntava-lhe para onde ele iria depois que a turnê acabasse. Aquilo sempre o trazia aqui. Tom sempre insistia para que o melhor amigo ficasse aqui durante alguns dias. Que se transformavam em semanas. Ate que eles decidissem que era hora da banda voltar a tocar pelos pubs da Inglaterra.
O começo foi terrivelmente clichê. Ele sorriu e bagunçou o cabelo - que tinha um tom de loiro mesclado ao castanho claro. Ele roubou meu coração naquele momento. Eu o odiava por isso. E o amava exatamente por isso. O amor platônico. Inalcançável. Ele não poderia ser meu. A musica e os cigarros, era somente a isso que ele pertencia.
- Hey, você esta bem? – eu perguntei e me recriminei mentalmente por isso.
- Oh, sim – ele sorriu – apenas o seu irmão atrasando tudo e me deixando impaciente, como sempre – outro sorriso – nada que seja uma novidade.
- Vocês vão partir? – perguntei.
- Sim - ele respondeu. Eu sorri e sai dali.
Eu o odiava. Odiava seu sorriso. Suas roupas amassadas. Se cabelo bagunçado. Odiava sua voz. Seus olhos. Odiava sua música. Sua melodia, suas palavras. Odiava seu jeito, seus defeitos. Mas acima de tudo, odiava a mim mesma, por não ser o suficiente para ele. Odiava-me por amar perdidamente aquele homem. Odiava-me por não ser como uma musica que inebria a mente dele. Odiava-me por amá-lo. Odiava-o por amá-lo.
- Esta noite você fica aqui, Kiki – Tom disse quando já era suficientemente tarde para que eu falasse que ia me deitar – quero passar minha ultima noite aqui te irritando.
- Eu ficaria tão feliz se essa fosse sua ultima noite aqui que nem me importaria com as coisas que você falaria. Mas essa não é sua ultima noite aqui, porque você sempre volta – eu disse – esqueceu? – perguntei, fazendo com que os outros integrantes da banda (que chegaram durante à tarde) rissem.
Eu fiquei. Enquanto os meninos riam e tomavam cerveja. Eu ficava pensando, enquanto bebia vinho. Ouvindo comentários sarcásticos de como eu era sofisticada por tomar vinho e sabendo detalhes das conquistas de Tom.
- Logo nenhuma inglesa chegara mais perto de você, Tom - eu disse – sua má fama esta conhecida por quase toda Inglaterra – eu completei, sorrindo para meu irmão.
- Isso não vai ser um problema - ele disse – ate lá você já vai estar em Paris, então, eu posso ir para lá e começar a disseminar minha má fama em terras francesas – ele riu
- Você vai embora? – a voz rouca ecoou pela sala e o olhar dele encontrou o meu.
- Sim, Pattz – meu irmão respondeu em tom zombeteiro – acho que ela se cansou de olhar para as nossas caras a maior parte do tempo – ele disse e riu mais alto.
- Isso é uma quase certeza, Tom. Você sabe muito bem que eu ainda não me decidi. – respondi depois que desviei meus olhos daquele olhar.
Eu me sentei perto do piano. Deixando meus dedos passarem pelas teclas. Ignorando a conversa. Um beijo no rosto despertou-me dos devaneios. As vozes - que juntas - me desejavam boa noite ecoaram pela sala, enquanto recebiam um aceno meu como resposta.
Então, continuei, passeando meus dedos pelas teclas. Ate que ele sentou-se ao meu lado.
- Deus! Eu pensei que todos já tinham ido dormi – eu disse, justificando a razão do susto.
- Cante – ele disse
- Eu não sei cantar – respondi.
- Cante – ele disse novamente, enquanto pegava minha mãe e colocava meus dedos sobre as teclas do piano.
A música. Letra. Melodia. O poder de inebriar, de ficar em sua mente. Doce. Triste. Devastadora. A música que canta corações partidos. Sofrimentos profundos. Que diz adeus. A música une e separa. A verdade dita de jeito lento, calmo, poético.
E eu cantei. Sobre amores proibidos. Eu cantei. Eu mostrei. Eu te amo, gritava para ele, secretamente, a cada frase cantada. Então eu cantei e parei.
Os lábios foram de encontro aos meus. O beijo foi avassalador. O tempo era pouco. Tudo deveria ser inesquecível. O fôlego faltou e quando respirei, senti o cheiro de cigarro e hortelã. O cheiro dele em mim. Inesquecível. Cada momento, cada segundo no qual passara com ele. Inesquecível.
- Eu te amo – a voz rouca cortou o silencio.
- Eu também - respondi.
Isso bastaria.
- Eu volto, se você prometer me esperar – ele disse depois de um beijo.
- Eu irei te esperar – eu prometi.
- Os cigarros, a minha musica e você. São tudo que eu tenho – ele disse antes de partir - Mas é apenas a você que eu pertenço – ele me beijou. Um beijo que me dizia que voltaria em breve.
E ele voltou.
Autora: Jé.
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